90 dias sem carne

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Sério mesmo?

Fiquei chocada ao perceber que fazem apenas 3 meses que estou sem comer carne. Em partes porque já estou completamente tranquila e não sinto falta de nada na alimentação, mas também porque me vejo repetindo por aí – especialmente pra mim mesma – que não existe a menor chance de voltar atrás.

E eu morro de medo desses meus “nunca mais” porque já paguei a língua centenas de vezes e não quero que isso aconteça agora. Não mesmo.

Tenho me alimentado como vegetariana estrita – sem carne, leite, ovos, mel ou qualquer produto de origem animal – na maior parte do tempo. Na verdade, aqui em casa não preparo nada com esses ingredientes, mas me permito comer queijo ou ovo, geralmente no meio de alguma receita, quando saio.

Ando flertando com o veganismo, leio bastante sobre o assunto, assisto documentários, entrevistas, e acho que esse estilo de vida faz todo sentido. Já comecei a procurar cosméticos e produtos de limpeza que não são testados em animais e decidi não comprar mais artigos de couro. Mas tudo isso não passa de um ensaio, sei que ainda tenho um longo caminho até me sentir fortalecida para assumir uma postura vegana.

Para mim, o mais difícil no vegetarianismo estrito é o convívio social. Creio que essa seja a grande questão para a maior parte das pessoas que passam por uma transição. Enfrentar os almoços de família, os churrascos com os amigos, recusar o bolo da mãe e ficar de boca fechada nos aniversários infantis, por enquanto, me parece missão impossível. Quem sabe um dia.

Por hora, sigo completamente feliz com a minha escolha, e a cada refeição que faço sinto que consigo me conectar mais com meu o corpo. É um troço meio zen, uma coisa quase espiritual, que falando assim, eu sei, parece papo de bicho grilo. Mas sabe o quê, experimente você e me diga como se sentiu.

Estamos começando um novo mês, aproveite e leia mais sobre o assunto, assista alguns filmes no Netflix, e proponha um desafio a si mesmo. Tente 30 dias sem carne. Se parecer demais, faça isso por 10 dias. Durante esse tempo consuma todo o material relacionado ao vegetarianismo que puder encontrar. Observe seu organismo, perceba como se sente depois das refeições, ao acordar, na hora de dormir. Você vai descobrir que não precisa de tanta carne.

Talvez não precise de nenhuma.

Chocolate, baunilha e amor

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Pode levantar as mãos pro céu e agradecer porque existe sobremesa vegana incrivelmente deliciosa e linda! E é mais que isso, além de não conter nenhum ingrediente de origem animal, esse doce é também muito saudável, só tem ingredientes naturais e você não vai abrir uma única lata durante toda a preparação.

Vou te contar uma coisa, eu toquei uma confeitaria artesanal por mais de dois anos, e mesmo tentando ser criativa, sempre que precisava preparar uma sobremesa, incluía nela leite condensado, creme de leite ou ovos. Todas as vezes.

Por isso ontem, quando finalizei essa torta aí, fiquei sentindo que ainda tenho muito caminho pela frente. A cozinha e os ingredientes são fontes inesgotáveis de possibilidades, e foi só depois da dieta vegetariana que consegui abrir meus olhos e enxergar com clareza essa verdade: a gente come e consome sem pensar.

Bom, mas chega de conversa e vamos pra receita. Eu me inspirei em muitos doces que vi nos blogs gringos de comida vegana e crua, mas no fim decidi criar a coisa toda do meu jeito, com os ingredientes que tinha aqui em casa. E ficou assim:

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Torta vegana de chocolate e baunilha 

Você vai precisar de uma fôrma com aro removível de 17cm de diâmetro. Se a sua fôrma foi maior, recomendo dobrar a receita. Antes de começar, deixe de molho a castanha de caju, ela precisa hidratar por no mínimo 4 horas antes de ser usada.

Ingredientes da base:

1/3 de xícara (chá) de amêndoas sem sal

1/3 de xícara (chá) de castanha do pará

6 ameixas secas, sem caroço

1 colher (sopa) de açúcar de coco

Coloque os ingredientes no liquidificador ou em um processador potente e bata até obter uma massa grudenta. Espalhe essa massa no fundo da fôrma, pressionando com os dedos pra que fique bem compacta. Tente deixar as laterais um pouquinho mais alta que o meio. Leve para o congelador enquanto faz os recheios.

recheio de baunilha:

1/2 xícara (chá) de castanha de caju crua, sem sal, deixada de molho por 4 horas

2 colheres (sopa) de melado

sementes de uma fava de baunilha – também pode 1 colher de café de extrato de baunilha

1/2 xícara de creme de coco – fiz o leite de coco caseiro, deixei na geladeira alguns minutos, e então usei só aquela parte bem cremosa que fica por cima.

1 colher (sopa) de óleo de coco líquido

Escorra a castanha, dispense a água, e junte todos os ingredientes no liquidificador. Bata por uns 3 minutos, até obter um creme liso e homogêneo. Retire a fôrma do congelador e coloque esse creme por cima da base. Leve pro congelador novamente.

recheio de chocolate:

1 abacate grande e maduro

4 colheres (sopa) de cacau 100%

3 colheres (sopa) de melado

1 colher (sopa) de chia

leite de coco caseiro

Coloque todos os ingredientes no liquidificador, menos o leite de coco. Bata pulsando, o quanto conseguir. Se tiver muito difícil, vá adicionando um pouco de leite de coco, mas não use mais do que meia xícara, a ideia é deixar o creme bem consistente, parecendo um mousse. Quando estiver homogêneo, retire a forma do congelador e espalhe o creme de chocolate por cima da camada de baunilha. Deixe no congelador novamente, por mais ou menos 30 minutos. Se deixar por mais tempo, a torta vai ficar bem dura, aí é preciso colocá-la na geladeira, uns 30 minutos antes de servir, pra que volte a ficar macia.

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Bombons de cacau e óleo de coco

Para decorar, fiz esses bombons e usei algumas castanhas de caju. Se quiser ter menos trabalho, faça apenas a calda e espalhe por cima da torta.

Calda de chocolate

1/3 de xícara (chá) de óleo de coco

1/3 de xícara (chá) de cacau em pó

3 colheres (sopa) de melado

Coloque o óleo de coco em uma panela e leve ao fogo até derreter. Quando estiver líquido, abaixe o fogo, adicione o cacau e o melado e misture bem, assim que estiver homogêneo, desligue o fogo. Coloque essa calda em forminhas de bombom – a minha é rígida e foi super difícil desenformar, acredito que naquelas de silicone fica bem mais fácil – recheie com manteiga de amendoim, coco ou faça maciço mesmo, despeje mais calda pra cobrir o recheio e leve pra geladeira até solidificar. Depois é só colocar por cima da tora.

Sozinho não muda nada

chuchu

Quando decidi parar de comer animais eu previa que muita coisa iria mudar, sabia que ia gastar mais tempo organizando e preparando as refeições, que teria de recusar alguns pratos, achava que iria responder algumas perguntas, mas não fazia ideia de como a minha percepção em relação à vida iria se transformar.

Fiz minha escolha baseada em 3 fatores: a preservação do meio ambiente, saúde e respeito aos animais, exatamente nessa ordem. A última coisa com a qual me preocupei foi a causa animal, mas assim que tomei consciência da crueldade que existe na indústria da carne, não só no abate como também em todo o processo de criação, eu fiquei chocada e ainda mais determinada.

E então, nesse curto período de tempo, parei pra refletir muitas vezes sobre o caminho que estava seguindo, e apesar de ter certeza de que essa é a melhor escolha, algumas vezes me perguntei se, sozinha, faria alguma diferença no mundo.

Sempre soube que a gente precisa respeitar as próprias ideias, valorizar o instinto e nos deixar guiar por aquilo que acreditamos, mas confesso que me senti um pouco desamparada quando constatei que não tenho nenhum amigo ou parente que compartilhe da mesma opinião em relação ao consumo de carne.

Até um Domingo desses em que fui almoçar na casa de um tio. Cheguei lá e antes mesmo de pegar um picles pra mastigar fui informada de que haveria um prato vegetariano feito especialmente pra mim. Fiquei super feliz e agradecida, mas quando vi a panqueca servida minha surpresa foi ainda maior: o prato não era só meu, e sim pra todo mundo.

Fiz meu prato cheia de gratidão e quando comecei a comer me dei conta de que a minha decisão, tão individual e pessoal, têm impactado muitas outras pessoas. Ali, naquele almoço de família, uma travessa de carne a menos foi servida, e isso encheu meu coração de alegria satisfação.

Esse argumento de que “sozinho você não muda nada”, “só você não faz diferença”, “não adianta nada só você parar”, é uma das formas mais covardes de desencorajar pessoas. Primeiro porque é usado por quem não consegue sair de onde está. Depois porque é, evidentemente, uma mentira.

Sim, você é capaz de mudar o mundo sozinho. E logo mais, ali na frente, vai perceber que está bem acompanhado. Sempre.